Onkalo, uma arquitetura pós – humana?

Desde que assisti o documentário “Into Eternity” no início do ano, tenho vontade de escrever algo sobre o assunto mas só agora, com um pouquinho mais de tempo e pesquisa, é que tive a confiança necessária.

O documentário dirigido por Michael Madsen é sobre Onkalo (em finlândes – escondido), um túmulo colossal subterrâneo que está sendo construído na Finlândia a 500 metros abaixo da terra – supostamente imune a qualquer evento na superfície e longe de qualquer possível terremoto. Sua finalidade é a de abrigar milhares de toneladas de resíduos nucleares radioativos, Onkalo é o primeiro lugar de armazenamento permanente de restos nucleares do mundo. De forma bem simples e resumida, resíduos nucleares são o subproduto (o que sobra) da geração de energia nuclear.

onkalo

Túnel Onkalo – Imagem de environment clean generations

O grande problema é que para ser seguro, esse gigantesco túnel, tem que durar 100.000 anos, antes disso qualquer ser vivo que lá entrar, será contaminado pelas substâncias radioativas. Esse documentário me colocou em um contato visceral com as vicissitudes do tempo geológico muito maior que eu gostaria e poderia imaginar. Fiquei pensando que se alguém, em 2010 por exemplo, tivesse me contato que em 2012 eu estaria estudando psicologia do esporte na Finlândia, eu daria boas gargalhadas, e bom… cá estou eu – falo de apenas 2 anos de diferença. Será que nós, seres humanos, seremos capazes de garantir que ninguém em Onkalo passará por 100 000 anos? Nossa própria história se estende por alguns milênios insignificantes se considerado o tempo de existência do planeta (acredita-se que o surgimento dos seres humanos foi há cerca de 200.000 anos atrás, enquanto isso a Terra já tem lá pelo seus 4.55 bilhões de anos). Só para se ter uma vaga ideia, a pintura mais antiga encontrada em uma caverna, tem aproximadamente apenas 30 000 anos, as famosas pirâmides, 4 500 anos. Você consegue ao menos imaginar como o mundo estará daqui a 100.000 anos? Até hoje não conseguimos criar nada que durasse por esse período, será possível criarmos o primeiro? A Finlândia está construindo algo para durar mais tempo do que qualquer outra instituição já concebida pelo ser humano.

Imagem de posiva.fi

Se você estiver se perguntando porque 100 000 anos, já posso adiantar que nem os próprios cientistas sabem muito bem a resposta. Os resíduos radioativos são perigosos para todos os organismos vivos e exposição à radiação pode resultar em morte, doença incurável, bem como a mutação do código genético. Os padrões de segurança são baseados em pressupostos teóricos, pois não se tem muita experiência com relação a resíduos radioativos, tudo o que se sabe é baseado em dados recentes. Na Europa, há um padrão de segurança de no mínimo 100 000 anos, período em que o lixo deve permanecer isolado de todos os organismos vivos. Nos Estados Unidos esse tempo é bem maior, 1 000 000 anos.

O filme de Madsen não se limita a fazer perguntas difíceis sobre as implicações geradas pelo uso da energia nuclear – principalmente agora que tal energia está experimentando um renascimento, uma vez que a queima de combustíveis fósseis se torna cada vez mais inaceitável –  mas Madsen questiona sobre como nós vamos conceber o nosso próprio futuro. Me arrepiei quando ele pergunta aos finlandeses, guardiões daquele lugar, qual linguagem a ser utilizada para evitar que aquela caverna seja reaberta. Deveriam eles colocar marcadores ou avisos no lugar para que em caso de algum ser, dezenas de milhares de anos a partir de agora, tropeçar em cima do túnel estar ciente de que lá não se deve entrar? Mas espera aí, o próprio português teve início no século V d.C (mais ou menos 1600 anos atrás) qual a língua que será falada daqui a 100.000 aqui por essas bandas? Ninguém sabe. Meu sangue gelou quando um engenheiro disse que o projeto tinha que ser “independente da natureza humana”.

O que mais me assusta é que a Finlândia é apenas o 18° país que mais usa energia nuclear no mundo, com 4 reatores. Os Estados Unidos utilizam 100 reatores, a França 58, Rússia 33, e até o Brasil entrou na dança com 2 reatores. Estima-se que a quantidade total de resíduos nucleares de alto nível no mundo é hoje entre 250 000 e 300 000 toneladas, e essa quantidade, claro, aumenta diariamente. Por mais “maluco” que o projeto Onkalo pareça ser, a Finlândia é o único país que já começou efetivamente a fazer algo a respeito dos resíduos nucleares, o restante ainda trata do assunto apenas na teoria.

Imagem de nei.org

Imagem de nei.org

 O combustível usado a partir de usinas nucleares é armazenado em piscinas de concreto revestidas de aço cheias de água, ou em aço hermético ou em recipientes de concreto e aço como na foto acima. Porém esses locais de armazenamento são vulneráveis a desastres naturais ou provocados pelo homem, como por exemplo em caso de guerras. É necessário uma extensa vigilância, gestão de segurança e manutenção. Será que todas essas usinas conseguem garantir tal segurança?

É claro que como um ser curioso que sou, fui ler e ver documentários que se posicionam a favor da energia nuclear, e posso escrever a respeito, por exemplo, do documentário “Pandora’s promise” se vocês tiverem interesse. Tenho que primeiramente concordar que a energia nuclear continua a ser uma das mais baratas, mais eficientes e é uma das formas mais amigáveis do carbono com relação a geração de energia. Tá, até ai tudo bem, mas e os resíduos nucleares? O argumento desse pessoal é “precisamos de energia”, precisamos de cidades iluminadas a noite inteira, precisamos consumir, precisamos viajar de avião o tempo todo e a energia nuclear é uma das que menos causa impacto ambiental, e bom as gerações futuras saberão lidar com o restos. Mas será mesmo?

Pode parecer loucura, para não dizer crime, obrigar 3.000 gerações futuras a cuidar dos nossos resíduos venenosos apenas para que possamos continuar a utilizar, por exemplo, a nossa televisão. Infelizmente, a verdade é que já é tarde demais para pensarmos em uma era sem energia nuclear, e o filme de Mr. Madsen chega em um momento perfeito para estimular uma conversa sobre o que fazer com os benditos resíduos.

O ser humano tem o hábito de lidar apenas com o imediato, sem pensar muito nas consequências, afinal de contas, elas só aparecem depois mesmo, não é? Há um tempo li que São Paulo está com o projeto de se tornar a primeira cidade-luz do Brasil, vi muitas pessoas comentando que isso seria ótimo pois diminuiria a violência. Primeiro, então a violência só acontece a noite e em lugares mal iluminados? Segundo, então vamos usar nossa energia para iluminar a cidade com a esperança de diminuir a violência, mas não vamos combater o problema em si? Quero ver por quanto tempo os índices de violência permanecerão baixos pois, por mais iluminada que uma rua seja as 4 horas da manhã, ainda sim, é bem provável que ela seja bem deserta.

O túnel Onkalo será totalmente lacrado apenas em 2100.  Estamos falando de um projeto que tem a ambição de se tornar uma arquitetura pós-humana. Por que não discutir Onkalo e suas implicações?

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14 comentários

  1. Muito rico o seu texto. Parabéns!!!
    Mas infelizmente a triste realidade é que só nos preocupamos com o nosso conforto, com o presente. Esquecemos das gerações futuras.
    Grande iniciativa da Finlândia.

  2. É uma assunto pouquíssimo discutido, desconhecido pela maioria, porém de grande relevância e muito preocupante. Não sei até que ponto o uso desta energia realmente é válida, pensando justamente, no que fazer com o “lixo” produzido. Gostaria de saber se a relação custos/benefícios/consequências, valerão os investimentos e os riscos(catástrofes naturais e humanas) que as atuais e futuras gerações podem sofrer. Como sou pouco conhecedora do assunto, tenho medo e dúvidas. Beijos linda, gosto de ler seus textos, pois são assuntos que no meu cotidiano são esquecidos.

  3. Muito bom Carol, parabéns pela matéria. Eu que gosto um pouquinho de Química…rsrsrsr…..gostei muito. Tai uma curiosidade que eu não tinha idéia de que estava sendo construída….espero viver o bastante pra ver pronta..rsrsrsr….abraços.

  4. Olá, Carol
    Fico grato por divulgar o video do meu canal. É um excelente documentário mesmo. Lembro de tê-lo assistido na TV Cultura em 2010, mas penei muito para achar na internet com boa qualidade e legendado. Coisas assim faço questão de divulgar e adoro quando os outros tem a mesma consciência. E infelizmente é um assunto que incomoda (e muito) as autoridades que detém as indústrias e sociedades consumistas.

    1. Oi Edu,
      Com certeza é um assunto que merece mais atenção. Fiquei muito feliz quando encontrei o documentário legendado no Youtube. Obrigada por tê-lo disponibilizado em um meio de comunicação mais acessível a maioria.

  5. Também, hoje vi o documentário s respeito nas Globo News.

    Fiquei impressionado com a imensidão do problema caso pelo uso das energia nuclear e, infelizmente, nada ou pouco se sabe a respeito dos grandes riscos possíveis pelos resíduos, disponíveis e armazenados de maneira vulnerável. Belo texto o seu, parabéns e que possamos sensibilizar cada vez mais pessoas a respeito de tudo isso.

    Onde chegamos, como chegamos e o que nos espera amanha…

  6. …acabo de assistir o documentário pela Globonews….impressiona bastante, porem, o homem esse ser imponderável, é quase que certo, exterminara a vida no planeta por falta de AGUA e ALIMENTAÇÃO

  7. Olá!
    Só hoje vi este documentário e, por conta disso, só hoje fiquei conhecendo Onkalo. As questões que passaram a ocupar a minha mente são várias e , -acabei por descobrir sua postagem . Observações ótimas!

  8. Penso ser difícil o homem durar mais cem mil anos,mas algum ser poderá ser vitimado pelas nossas inconsequências. O documentário sobre Onkalo é aterrador….

  9. assisti na Globo news a reportagem de Onkalo. Hoje fui atras de mais informações na internet. Coloco algumas questões para reflexão. Onde estão sendo armazenados nossos lixo de Angra ? A nossa mina de ouro em Nova Lima/MG tem profundidade de mais de 3 mil metros, ou seja 4 vezes mais profunda que Onkalo,; poderíamos pensar em nosso futuro deposito “Onkalo” lá ? Como a crosta terrestre está flutuando sobre uma mar de rocha derretidas como pensar que as rochas da Finlândia ficarão pelos próximos 1000 anos estáveis ? ; Não vejo saída para a quetão.

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