Bicicletando por aí

young with caloi bikeLembro-me de quando aprendi a andar de bicicleta sem rodinhas de apoio. Estava na fazenda, eu e meus pais, com a minha super fofa bicicleta rosa da caloi, fomos para uma subidinha perto do curral, minha mãe foi comigo até a parte mais alta e meu pai ficou no final da descida para que caso eu não conseguisse controlar, ele estaria lá para me amparar antes de cair.  Não me lembro mais quantas vezes treinei, só sei que ao final do dia estava me sentindo a última bolacha do pacote controlando aquela “coisa” de duas rodas.

Durante toda a minha vida, bicicleta foi um passatempo, algo para dar voltinhas nas estradas da fazenda. Só foi agora em 2012, que a minha paixão por bicicletas desenvolveu por completo. Em Jyväskylä, assim como em tantas outras cidades na Finlândia, a bicicleta é um meio de transporte muito utilizado, não importa se está chovendo, se a temperatura está entre os -25 graus ou +25 graus, o fato é que a maioria das pessoas utiliza a bicicleta para se locomover.

Eu sempre procuro e gosto de experimentar o modo local de se viver, então também comprei a minha bicicleta. A primeira foi bem modesta, a coitada, como eu só iria receber o meu primeiro salário no final do mês, comprei uma bicicleta, por assim dizer com uma certa idade; com apenas uma marcha, com os freios bem fraquinhos e com os pneus carecas – mas tenho que admitir que já dava lá o seu caldo.  Desde o primeiro dia adorei, me sentia leve sabendo que eu não estava poluindo o ambiente, ocupando um espaço desnecessário na rua com carro para apenas uma pessoa e ainda de quebra, estava me exercitando e cuidando da minha saúde.

Não tem como falar de bicicleta e não mencionar Copenhague, Dinamarca. Me senti em um parque de diversões quando lá visitei. Parecia um sonho de tantas bicicletas que vi. Mulheres de vestido e salto alto e homens de terno indo para o trabalho de bicicleta – um máximo, estilo total!  Não é a toa que Copenhague é considerada a cidade das bicicletas, 50% de todos os cidadãos se locomovem de bicicleta todos os dias, lá há mais bicicletas do que habitantes – 520.000 pessoas e 560.000 bikes. Fiquei tão encantada que quase bati a cabeça em postes, e tropecei algumas vezes só para admirar a situação; são mais de 40 000 ciclistas por dia.

Cargo bike

Cargo bike

Está achando que bicicleta é só para uma pessoa? 25% de todas as famílias com dois filhos em Copenhague tem uma bicicleta de carga que é utilizada, por exemplo, para transportar as crianças para o jardim de infância e para compras de supermercado (pretendo fazer parte dessa porcentagem um dia) e  63% de todos os membros do parlamento dinamarquês se locomovem diariamente de bicicleta – já imaginou a nossa querida Dilma pedalando para o Palácio do Planalto?

Copenhague

A infraestrutura de Copenhague foi construída tendo como base o fato de que uma bicicleta não é apenas a maneira mais barata, saudável e rápida de se locomover pela cidade,  é também um fator indispensável na redução da emissão de carbono. Esse meio de transporte é uma parte vital da ambição da cidade em se tornar a primeira capital neutra em carbono no mundo até 2025.

Bicicletas, diferente de carros, não emitem CO2, nem óleos, combustíveis e fluidos hidráulicos, o que significa menos toxinas sendo escoadas em águas locais. Além de não emitir qualquer CO2, você não precisa se preocupar com combustível, nunca! O que já é uma grande benção. Dado o custo da gasolina que diga-se de passagem, no Brasil é subsidiado pelo governo, imagina se não fosse. Tudo que você tem que fazer é alimentar bem. Enquanto estou pedalando, de quebra também estou tonificando meus músculos, especialmente panturrilhas, coxas e bumbum. Além de economizar com a gasolina também economizo com a academia. Boa condição física é um benefício enorme, além de ser divertido; já que daqui a dois meses serei oficialmente uma psicóloga do esporte e do exercício tenho que promover a boa forma, não é?

Bicicletas elétricas são uma ótima alternativa para quem ainda não tem um bom condicionamento físico, e/ou quer chegar mais rápido a um local, na Europa o limite de velocidade é de 25 km/h. Por mais que a bicicleta elétrica seja mais caro que a convencional, nos Estados Unidos o custo mensal para manter um carro é entre $ 600 a $900 dólares, em contrapartida o custo de uma ebike é de apenas $ 20. E o mais importante, com a ebike você ainda pode escolher se exercitar, utilizando a assistência apenas naqueles momentos mais penosos.

Infelizmente todos os produtos manufaturados têm impacto ambiental, mas as bicicletas podem ser produzidas por uma fração muito menor de custos de materiais, de energia e de transporte do que de um carro. É claro que bicicletas também vão precisar de reparos com o passar dos anos, mas as peças são muito mais baratas, e você mesmo pode conserta-la, eu mesmo já aprendi a fazer vários reparos.

A verdade é que nem todo mundo pode obter uma carteira de motorista (ou quer uma), e o custo de aquisição, manutenção, seguro e impostos são fora do alcance de muitas pessoas. Quase todo mundo pode pagar por uma bicicleta (na minha primeira eu paguei apenas 50 reais). Com exceção da caminhada, a bicicleta é o meio de transporte mais vantajoso do planeta.

2013-10-19 15.07.21

Outono em Tampere

Nem sempre os dias com a minha bicicleta foram fáceis, já passei por algumas tempestades, as vezes a neve fica alta, chegando a 30 cm, fazendo com que cada pedalada seja sofrida, e muitas vezes a superfície do asfalto se transforma em gelo e eu com a minha bicicleta de pneus carecas tínhamos que literalmente nos virar nos 30, mas como no invernos uso três camadas de roupas, os tombos não são lá tão doloridos. Em setembro do ano passado consegui comprar uma bicicleta nova, com freios bem eficientes e pneus novos. Já pedalei muito a -25 graus, durante chuva forte, nevascas que não me davam visibilidade nenhuma, e até mesmo quando estava a +30 graus. Mas a verdade é que não troco a bicicleta por um carro de modo algum. Me sinto em completa paz e sou muito feliz com a minha bicicleta e o meu estilo de vida!

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Observação: Sei que provavelmente a grande maioria dos que irão ler esse post tem um carro. Gostaria de deixar claro que o meu objetivo não é tentar mudar o comportamento de ninguém, e sim mostrar como são outros países, culturas e de quebra apontar alguns fatos que eu considero interessantes. Mas também tenho que admitir que refletir sobre a nossa própria cultura e cotidiano não faz mal a ninguém 😉

 Para aqueles interessados: E se o trem fosse o principal transporte no Brasil?

http://super.abril.com.br/cotidiano/trem-fosse-principal-transporte-brasil-443257.shtml

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9 comentários

  1. Depois que você ganhou a sua primeira bicicleta você nunca mais parou né?
    Pedalava todas as tardes na fazenda, só que naquela época era por lazer e hoje utiliza a bicicleta também como meio de transporte.
    Adorei o texto, e já estou louca para ler o próximo.

    Te amooooooooooooooooooo

  2. Pena que o nosso trânsito maluco não nos dá segurança para pedalar. Aqui existem equipes que pedalam por lazer nos finais de tarde, e para sua segurança são escoltados por carros da guarda municipal. É tudo uma questão cultural e de educação no trânsito.

  3. Parabéns pelo texto,consciência ecológica,praticidade e economia.
    Eu já adotei,vou para o curral de bike,para falar a verdade a sua. Mandei arrumar,em breve mando fotos.

    Beeiijos

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